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Assunção Sousa Soares: “Antigamente era um viver com dificuldades, não é como agora, trabalhava-se muito para viver a vida sem obstáculos”

Oliveira de Azeméis

É numa típica cozinha implantada no rés-do-chão da sua casa, onde impera o forno a lenha, identidade máxima do pão de Ul, rodeado de pás, peneiras e masseiras, que encontrámos a Tia São, de nome Assunção Sousa Soares, padeira de profissão, olhos vivos com a curiosidade e o orgulho de quem vai contar uma história, a sua história, para que as suas memórias e as do pão de Ul permaneçam vivas.

Chapeuzinho de coco na cabeça, bata e avental sarapintados de branco, curvada sobre uma funda masseira de madeira, as suas mãos mergulham numa mistura de farinha, água, sal e fermento. Vai explicando que a água não pode ser nem muito fria, nem muito quente, porque “o fermento é um ingrediente difícil, é preciso apanhar-lhe as manhas”. 

Na sua pequena cozinha de forno o pão ainda se faz de forma manual. São as mãos e os braços que trabalham cuidadosamente os diferentes ingredientes que, ao ritmo das várias voltas e reviravoltas, se vão namorando e casando, numa combinação harmoniosa que resulta no mais simples e elementar alimento de vida. 

Com 89 anos, nasceu no lugar do Pereiro, Freguesia de Ul, e tem mais dois irmãos, um rapaz e uma rapariga. É descendente de uma família de padeiras, que vai já na quinta geração. A sua bisavó era padeira, assim como, a avó, a mãe, a irmã, ela própria e a sua filha, que lhe apanhou cedo o gosto.

Recorda com saudade que o avô era carpinteiro de profissão e fazia uma boa parte do mobiliário usado na antiga padaria: mesas, bancadas, cadeiras e bancos de madeira...  Como sempre foi de estatura muito baixa servia-se de um pequeno banco feito pelo avô para conseguir chegar à masseira. Já o pai era pedreiro e barbeiro e “não ajudava nada na padaria a não ser arranjar a lenha para o forno”.

Andou na escola, fez a terceira classe e por isso sabe escrever e ler, hábito que tem hoje como passatempo, ao qual dedica uma pequena parte do seu dia-a-dia, “sem óculos” – diz com o orgulho de quem mantém ativos os sentidos que lhe dão sentido à vida. Aprendeu a costura ainda menina e recorda com afeição que foram as suas mãos que coseram os bibes da filha.

Aos 23 anos casou e dessa união nasceram dois filhos, um rapaz e uma rapariga, filha com quem reside atualmente. Também o marido foi envolvido nas tarefas da padaria e ajudava frequentemente a peneirar, atividade de que Assunção Soares menos gostava  e aquela que mais lhe custava.

Quanto ao pão de Ul recorda que ainda não tinha 15 anos e já saía de casa, canastra à cabeça, para entregar o pão que chegava a terras distantes e era vendido para o Couto de Cucujães, Pindelo, Carregosa, Vila Cova de Perrinho, Rossio, Chão de Ave, Farrapa de Arouca, lugares localizados acima de Carregosa. A mãe também vendia para o mercado de Oliveira de Azeméis. Ia duas vezes por semana, à terça e à sexta-feira, distribuir o pão para Pindelo, Carregosa e Farrapa de Arouca. Já a irmã deslocava-se aos lugares mais distantes, quase a chegar a Arouca.

O pão era vendido essencialmente para as lojas, antigamente chamadas de mercearias e tabernas. “Eram bons clientes, a venda podia ascender às 400 padas de pão”. Os clientes pagavam na entrega porque a ordem que chegava das mais velhas era “Pão no balcão, dinheiro à unha”.

A jornada de venda do pão iniciava-se às 6 horas da manhã e podia durar até ao fim do dia. Os verões quentes e os invernos chuvosos dificultavam uma tarefa já de si penosa, uma vez que as longas caminhadas não permitiam o descanso numa qualquer porta de abrigo. O almoço era café e pão, com sorte, uma malga de sopa, oferecidos por um ou outro cliente mais atento às canseiras da tarefa.

A mãe tinha várias mulheres a trabalhar e a distribuir o pão. As “regateiras” vinham duas e três vezes por semana carregar o pão, de madrugada, com as canastras à cabeça. Outras havia que recolhiam o pão na estação de comboio e o vendiam como forma de sustento. Assunção Soares fez muitas corridas para o comboio até ao apeadeiro de Ul para que o pão chegasse a horas ao seu destino.

O apeadeiro de Ul foi, durante muitos anos, um local de partida e chegada das padeiras de Ul. Apanhavam o comboio que vinha de Sernada do Vouga em direção a Espinho e todos os dias iam padeiras de Ul para Santiago de Riba-Ul, Cucujães e Pinheiro da Bemposta.

Recorda-se de antigamente existir na freguesia muito mais padeiras do que atualmente, reconhecendo a tristeza pelo desaparecimento dessas padeiras mais antigas.

Desde pequenina que se lembra de peneirar, amassar, deixar levedar, tender, deixar repousar novamente e colocar ao forno… Para medir a farinha utilizava-se a «quarta» (caixa de madeira usada para medir a farinha, cuja capacidade corresponde à quarta-parte do alqueire), colocavam-se três «quartas» em cada masseira, sal na bacia da água, fermento, uma mistura feliz para fazer o pão o mais natural possível, sem aditivos…

Já a mãe fazia “crescentes”, massa mãe, que trabalhava durante a noite e já não era preciso fermento no pão, um processo que hoje já não se utiliza mais. A avó também cozia broa.

A farinha chegava nas carroças dos jumentos, vinda dos moinhos instalados no Rio Ul e Rio Antuã e trazia ainda o “farelo”. Era peneirada em casa nas tradicionais peneiras, à mão, até surgirem as peneiras elétricas. Separava-se a farinha fina da farinha do canoco, a sêmea, menos nobre.

A partir dos anos 70 surgiram as empresas de moagem da farinha, a “Catelas & Teorgas”, o que foi um descanso para as padeiras que nunca mais peneiraram à mão.  Tirou muito trabalho de corpo e não fazia tão mal à saúde, uma vez que o pó da farinha prejudicava os brônquios.

Para levar a vida sem obstáculos trabalhava-se muito. Ainda hoje relembra uma época em que “os padeiros das padarias comerciais fizeram greve, não havia pão para vender”. Chegou a trabalhar 24 sobre 24 horas seguidas durante esta greve porque não havia pão suficiente que conseguisse alimentar tanta gente no concelho. Também se lembra da atividade ser controlada pelos fiscais, que confiscavam o produto caso o registo estivesse mal feito o que obrigava as padeiras, tantas vezes, a fugirem pelos atalhos para tentar salvar a venda. 

Antigamente, relembra que se viveram “períodos muito difíceis, com crises económicas que agravavam muitas situações de pobreza”. Quem tinha muitos filhos vinha para a porta dos moinhos pedir milho para cozer broa e matar a fome. O milho chegou a custar mais de 100 escudos cada alqueire.

Gosta muito, ainda hoje, de cozer o pão “para se distrair, para não se desapegar por completo da sua profissão”. Apesar de marcados pela idade, os braços guardam ainda a força e a vontade de amassar e as mãos o dom de tender com conta, peso e medida os bolinhos que se vão converter no pão que tanto a orgulha.

Já os olhos refletem a humildade de quem guardou o melhor de uma vivência dura, com muitas perdas e desvantagens, e transmitem a ternura e a beleza de quem aceitou com resiliência e alegria um destino e uma história de vida feita essencialmente de trabalho e de missão.

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