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Maria Cândida Marques Rocha: “Antigamente a farinha dos moinhos era distribuída pela aldeia com a «carrocita e com o burro». E de bicicleta. Era a minha irmã Deolinda que conduzia a bicicleta do meu pai, eu empurrava atrás”.

Oliveira de Azeméis

Pelas sete horas da manhã, em casa de Cândida Rocha, assiste-se a um vai e vem de vizinhos que procuram o pão quente acabado de sair do forno para servir ao pequeno-almoço e para fazer as sandes que servirão de merenda para aconchegar a jornada de trabalho que se iniciará em breve.

Os clientes das redondezas aparecem sempre a horas certas, saca de pano na mão, rostos ainda ensonados e corpos cansados a precisar de um café e do pão quente para despertarem e se lançarem à labuta. Pagam à semana ou ao mês, porque as contas são fáceis de fazer: a quantidade diária é sempre a mesma, basta multiplicar o número de padas por 25, 26 ou por 27 dias, consoante os meses, porque se descontam os domingos.

Cândida Rocha tem 65 anos e é filha de padeira e de moleiro, neta e bisneta de padeira, irmã de duas padeiras, a Lurdes e a Deolinda, representando, portanto, genuinamente, a mais verdadeira identidade da freguesia de Ul, ligada aos moinhos de água, à moagem dos cereais para a farinha e ao famoso pão de Ul.

O pai tinha três casas de moinho, a de cima com três rodas, a do meio com 4 rodas e ainda possuía um moinho para o milho, com duas rodas. Estes moinhos ficaram para a irmã mais velha, a Lurdes, mas com o tempo de inatividade foram ficando degradados. O pai ainda tinha um quarto moinho em casa, esse elétrico, para assegurar que a atividade não parava quando não corria água no rio, principalmente durante o Verão.

A farinha dos moinhos era peneirada em casa e Cândida Rocha explica que o pai comprou a primeira peneira que existiu em Ul a um senhor de Loureiro. Não havia na aldeia quem mais peneirasse e o pai, verdadeiro empreendedor, decidiu também investir nessa tarefa. Ao fim de alguns anos, a primeira peneira foi substituída por uma máquina mais sofisticada que, ao mesmo tempo, separava a farinha fina para o pão, o rolão para os canocos e os farelos para os animais.

Antigamente, a farinha dos moinhos era distribuída pela aldeia com a «carrocita e com o burro». E de bicicleta. “Era a minha irmã Deolinda que conduzia a bicicleta do meu pai, eu empurrava atrás”.

A irmã mais velha, a Lurdes, foi a primeira a tirar a carta de condução, e o pai decidiu-se a comprar uma carrinha para fazer a distribuição. O pai não tinha estudado, era analfabeto, por isso não podia conduzir, mas passado alguns anos da filha tirar carta ganhou coragem para fazer o exame da 4ª classe em Ul, com o Professor Manuel Magalhães e conseguiu, também ele, ficar com a carta de condução. Aí, começou ele a fazer a distribuição e a irmã Deolinda ajudava-o.

Entretanto, foi a irmã Deolinda a decidir-se a tirar carta de condução e era ela quem acompanhava a mãe, de manhã, aos mercados de S. João da Madeira, que eram realizados às terças e quintas feiras e aos sábados. Já durante a tarde, ia distribuir a farinha com o pai, pela aldeia, mas também a outras freguesias. Cândida Rocha, nessa altura, apesar de já ter idade, não tinha ainda a carta de condução, e por isso assumia outras tarefas.

A sua juventude foi, então, passada na padaria da mãe durante a noite e a manhã, e no moinho do pai, durante a tarde, e nunca imaginou ter outra profissão senão aquela que marcou a sua história familiar ao longo de tantas gerações. Quando era mais nova não descansava, tinha força e vontade para desempenhar todas as obrigações.

Foi quando o pai faleceu, aos 62 anos, que a mãe e as irmãs começaram a comprar a farinha, depois de acabarem de moer o trigo que estava guardado no armazém. “Já lá vão muitos anos”, recorda Cândida Rocha.

Recorda-se que a irmã Lurdes apanhava o comboio para S. João da Madeira onde ia distribuir o pão de canastra à cabeça. Já para as feiras, apanhavam uma camioneta que vinha de Loureiro e que levava as padeiras todas de Ul. Os clientes eram, essencialmente, lojas e tabernas e, para além de S. João da Madeira, também distribuíam o pão em Cucujães, essencialmente, em Faria de Cima, Faria de Baixo e na Margonça.

A mãe não faltava à feira dos 4, em Arrifana, à feira dos 9 e dos 23, em Vale de Cambra ou aos 15 e aos 30, em Santo Amaro. Ainda hoje, Cândida Rocha tem na memória que onde se ouviam foguetes, lá se aventurava a mãe para ir vender o pão e as regueifas nas festas. Não podia faltar a nenhuma, desde a Nossa Senhora de Alumieira, à Senhora das Flores, às Festas de La Salette, à Festa de Santa Luzia, em Cucujães, às Festas do Rio, em Santiago de Riba-Ul, até à Festa da Páscoa da Alumieira, em Loureiro, enfim “era uma vida de muito trabalho e de dedicação total”.

Cândida Rocha é a mais nova das três irmãs, todas padeiras, mas no tempo em que trabalhavam com a mãe, só as mais velhas a acompanhavam nas vendas em S. João da Madeira. Depois do casamento, ambas as irmãs seguiram rumos que se afastaram do ofício do pão. A irmã Deolinda emigrou para a Venezuela. Já a irmã Lurdes foi trabalhar com o marido que era proprietário de uma loja de eletrodomésticos.

Só quando a mãe faleceu é que as irmãs se voltaram a juntar na padaria de família, até terem decidido, cada uma, montar o seu próprio espaço. Apenas Cândida Rocha permaneceu na padaria da mãe.

Cândida Rocha refere que hoje a sua padaria é novamente um espaço de família que reúne numa só arte a irmã Lurdes e o marido que, desde que se aposentou, tem assumido a tarefa de distribuir pelos clientes o pão de Ul acabadinho de sair do forno às primeiras horas da manhã.

Estudou até ao sexto ano e chegou a aprender costura em casa de uma vizinha “às tardes”. Mas o trabalho em casa era muito, porque, para além da padaria, cumpriam-se os afazeres domésticos, ainda se semeavam as terras, plantavam-se as batatas, enfim, acabou por ficar a ajudar a mãe e nunca mais se separou do sítio que a viu nascer e crescer.

É claro que a antiga casa dos pais é, hoje, uma bonita moradia com o conforto dos tempos modernos e a padaria foi construída há 18 anos nuns anexos da casa mãe tendo, ao longo dos tempos, vindo a ser apetrechada com o equipamento necessário para aliviar o trabalho de mãos e braços a que o pão obrigava antigamente.

Quando a irmã emigrou para a Venezuela, Cândida Rocha decidiu-se a tirar a carta de condução e, a partir dessa altura, passou ela a assumir a tarefa de distribuição, enquanto a mãe ficava a limpar a padaria e a preparar o almoço.

Atualmente, ainda mantém parte das vendas da mãe, essencialmente para Cucujães e São João da Madeira, para além da vizinhança que procura o pão de Ul diretamente na padaria. A sua rotina implica levantar-se de segunda a quarta-feira às 4 horas da madrugada, e à quinta, sexta-feira e ao sábado às 3 horas, porque tem as encomendas de regueifas e sempre coze uma maior quantidade de pão. Deita-se cedo, por volta das 8 ou 8 e meia, e confessa que já sente necessidade de repousar um pouco depois do almoço para descansar da azáfama da padaria.

Agora só faz duas fornadas durante a semana, cerca de 400 padas. O forno é muito grande e leva perto de 250 padas de cada vez. Sente que já não se compra tanto pão como outrora. As famílias são mais pequenas e o pão não para de aumentar o preço devido à subida da farinha, da lenha e da gasolina.

Também reconhece que a sua atividade foi facilitada com a introdução da máquina e da tendedeira na padaria. Foi uma das primeiras padeiras a ter tendedeira, na altura comprada em Lisboa. Conta que quando o pai apareceu com a novidade, foi grande a festa por casa, mas a máquina não funcionava e estragou muito pão.

Pediram ajuda a uma pessoa conhecida em Oliveira de Azeméis que lhes respondeu que a arte do pão de Ul não podia ser realizada com o recurso a máquinas. “Chorei dia e noite, porque já tínhamos dado o dinheiro e não conseguíamos fazer uso da máquina”, lamentou-se Cândida Rocha.

Até que um dia um vizinho decidiu levá-las a Gaia para ver o trabalhar de máquinas semelhantes numa padaria industrial e, esses padeiros, disponibilizaram-se para vir à sua padaria ver a tendedeira que, afinal, não estava estragada, precisava, sim, de afinação. Depois de ajustada, passou a fazer sempre bem o pão e deverá ser a única tendedeira em Ul que para além de cortar, ainda enrola os pãezinhos, deixando-os prontos a entrar no forno.

Apesar de gostar da sua profissão, não se dispõe a trabalhar para além dos 67 anos de idade porque considera que “tudo tem o seu tempo” e os problemas de saúde vão limitando as forças e a coragem. Apesar de ter um filho, este está empregado numa outra área e acredita que no, seu caso, a tradição familiar do pão de Ul não poderá ter continuidade após a sua retirada.

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